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quinta-feira, 21 de maio de 2009

O QUE É POLÍTICA?


Reflexões sobre espaço público, liberdade e pluralidade no pensamento de Hannah Arendt
ProfºAntonio Marcos Ferreira

Ao fazermos um estudo sobre o sentido da política da sociedade ocidental ficamos extremamente abismados ao constatar que a pratica atual é tão distinta que nem fazendo enorme esforço conseguimos relacionar com o seu sentido primeiro empregado na polis grega .Na atualidade, observa-se o quanto se tornou cada vez mais comum grande parte das pessoas afirmarem que não gostam de política, que têm raiva de políticos ou ainda, que são apolíticas. Pergunta-se, então: o que terá levado tais pessoas a essas afirmações? Não seria exatamente por conta de uma concepção equivocada da política? O que teria causado tal mudança quanto à aplicação da política? Por que a política já não possui o mesmo sentido? Afinal, que quer dizer política hoje? Esses e outros questionamentos nos fazem perceber que na verdade o mundo moderno-contemporâneo enfrenta uma grande crise quanto à compreensão da política e não se trata de uma crise de significado (no plano lingüístico), mas de uma crise de sentido ou de compreensão de ordem prática da política.
Quando analisamos a concepção política na antiga sociedade grega, compreendemos que nesta não havia como se pensar em política em desconexão com a idéia de uma atividade exercida no espaço público. Na modernidade, a política acabou por transformar-se em mera atividade técnica. Justamente esse esvaziamento do sentido original da política é o que por hora nos conclama a dedicarmo-nos a tal indagação: O que é política? Teria a política de fato algum sentido? Ou tal questionamento nos ocupará em uma tentativa simplesmente vã? Qual o verdadeiro sentido da política? Para a Hannah Arendt, o sentido da política é a liberdade. É a liberdade para ela o elemento central que garante aos indivíduos o pleno exercício da vida ativa conforme ela afirma na obra O que é Politica: “Para a pergunta sobre o sentido da Política existe uma resposta tão simples e tão concludente em si que poderia achar outras respostas dispensáveis por completo.Tal resposta seria: O sentido da Politica é a liberdade (ARENDT, O Oue é Política, p.38,1999) Ou conforme ratifica DUARTE: “Em uma palavra a experiência da liberdade a que Arendt se refere consuma-se na experiência da ação política conjunta, por meio da qual advém a novidade que renova e redireciona de maneira inesperada o curso dos processos desencadeados pela interação humana, garantia de uma história aberta e sem fim. (O Pensamento a Sombra da Ruptura, p 213, 2000). Diferentemente da concepção arendtiana, nas práticas antipolíticas vivenciadas em seu tempo (totalitarismo), o poder era entendido como aplicação de técnicas exercidas por “especialistas” sobre o domínio das massas, onde o “governante” agia de maneira particular, portanto, sem o reconhecimento dos demais, como se política lhe fosse uma faculdade naturalmente própria.
Arendt diz que a politica de fato é atividade, isto é, só pode ser efetivada na esfera pública mediante a ação e o discurso. A ação que segundo ela, não é inata, na medida em que remete a instituição de um espaço comum, construído no eixo da história que requer o discurso, portanto requer também a pluralidade como condições desse espaço público.Por isso para Arendt, em sua essência ou em sua natureza o homem jamais pode ser considerado um ser político. Visto que a política só poderá se dar entre os homens. Por isso mesmo a política não está ao alcance nem da filosofia e nem da teologia.
Por ser atividade política não reside no homem enquanto condição essencial, nem nos homens enquanto indivíduos isolados, visto que exige sempre a presença dos outros, conforme assinala Duarte: “...]só podendo manifestar-se de maneira concreta onde exista um espaço publico destinado à interação humana” (DUARTE, . 2000.p 210).Thomas Hobbes teria entendido muito bem ao abordar a questão da constituição da sociedade política. Para ele, o estado de natureza é visto como condição que possibilitava a existência da guerra, visto que em tal circunstância não havia uma legislação comum aos indivíduos.Assim a criação de uma instituição reguladora para os interesses coletivos teria sido, para Hobbes, a alternativa fundamentalmente viável para garantia da paz entre os homens. O estado civil ou político seria a alternativa plenamente humana para uma comunidade de homens.
Em Hannah Arendt, a política é na verdade uma “atividade mundana” que só é possível a partir da relação entre indivíduos diferentes, embora iguais quanto aos seus direitos e deveres dentro da cidade, é através da política que os homens podem realizar-se plenamente. É no espaço publico que o homem pode atuar em um mundo de completa visibilidade.A pluralidade é, para Arendt, pressuposto fundamental para a existência da política. Por isso a liberdade em Hannah Arendt será apontada como o verdadeiro sentido da política. A liberdade é para ela, o que possibilita, no interior do espaço publico o acontecimento de milagres. O “milagre” dos novos começos é o que caracteriza a imprevisibilidade da ação dos homens que estão sempre aptos a realizar o improvável e o inesperado, como reafirma Duarte: “[...] Em suma, se o sentido da política é a liberdade, então é exatamente no espaço público que estamos plenamente autorizados a esperar “por milagres”, pois enquanto os homens puderem agir , estarão aptos a realizar o improvável e o imprevisível” (O pensamento à Sombra da Ruptura, p. 215.2000).Por isso a história jamais pode ser determinada, nem a ação humana pode ser condicionada, já que isso desqualifica a ação humana e anula a distinção crucial entre os homens e os demais animais.
O milagre humano fundamenta-se na possibilidade constante do novo. Cada nascimento é caracterizado por um novo e indeterminado começo (ARENDT,1999,p. 43). É esse principio da natalidade e imprevisibilidade que torna os seres humanos exclusivos. Mas isso só se torna possível de fato mediante a garantia plena da liberdade. Sem a liberdade os homens até podem ser animais socialis, mas nunca serão políticos de fato.
A concepção grega de liberdade acentuava que só eram de fato livres os indivíduos que não estavam sujeitos à nenhuma submissão. E era por isso os escravos não poderiam de modo algum ser considerados políticos, já que estavam diretamente vinculados a necessidade do trabalho. Arendt compreende que só através da ação e do discurso é que os homens podem realizar-se na plenitude da vida política como indivíduos livres. Visto que a presença da coerção ou da violência de uns para com os outros faz com que o espaço publico desapareça e seja equiparado a esfera privada e não em uma polis. Por isso acentua Arendt, que “ser-livre e viver-numa-polis eram de certa forma a mesma e única coisa” (ARENDT , 1999, p. 47), visto que implica necessariamente na compreensão de que os homens no sentido político não podem em nenhum momento considerarem-se auto-suficientes, mas sim dependem sempre dos outros para realizarem-se em provimento mútuo da vida relativo a todos.Pode-se assim deduzir que a tarefa e o objetivo da política resumem-se, sobretudo, na garantia da vida no sentido mais amplo. O que nos faz de certa forma voltar a Hobbes, já que para este o estado político teria sido criado para que o homem saísse do estado de natureza, visto que tal estado representava um perigo mútuo de ameaça a vida entre os homens. Cabe-nos, assim, compreender na filosofia de Hannah Arendt a incontestável aderência da autora aos regimes verdadeiramente constituídos por democracias, já que para ela só nas formas democráticas de governo a liberdade poderá ser plenamente garantida. Daí a importância do pensamento arendtiano como referência primordial para a filosofia política na atualidade.
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*Graduado em Filosofia Licenciatura Plena/Bacharelado pela UFPA. Fez curso em Filosofia Natural pela Associação Internacional Nova Acrópole.Atua como professor no ensino médio e pré –vestibular. Colaborador do Jornal de Ananindeua. Coordenador do Projeto Laboratório de Imprensa popular em Igarapé-Miri e do blog:WWW.afolhademaiauata.blospot.com. Secretario da Associação Artística Ananin.Autor das Obras Poesias de Igarape-Miri ,Versos de Açaí e CONTRASTES, poemas que nascem na Amazônia(obrapublicada parceria com o professor e poeta Israel Fonseca Araújo).


REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannah. O que é política?. Editora Bertrand Brasil, 1999.
ARENDT, Hannah. A condição Humana. Editora Forense Universitária, 1969.
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e futuro. Editora Perspectiva, 1979.
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Editora Companhia das Letras, 1989.
ARENDT, Hannah. Sobre a Violência. Trad. André Duarte. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará, 1998.
ARENDT, Hannah. A dignidade da política: ensaios e conferências. In: Antonio Abranches (Org.). Trad. Helena Martins. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará,1993.
DUARTE, André. O Pensamento à Sobra da Ruptura: Política e filosofia em Hannah Arendt. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2000.
HOBBES, Thomas. De Cive. Trad. Ingeborg Soler. Petrópolis, RJ: Editora Vozes,1993.
LAFER, Celso. Hannah Arendt. Pensamento Persuasão e Política. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra,1979

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